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“PERTO DAS TREVAS" de William Styron: A Depressão em Testemunho Literário e sob uma Conversa Lacania
Texto publicado como Capítulo 8 no livro: "Perto das Trevas: a depressão em seis perspectivas psicanalíticas", publicado pela Editora Blucher em 2022. Disponível em: https://www.blucher.com.br/perto-das-trevas_9786555061307 Autores: Marcos Paim C. Fonteles[i] Rosângela de Faria Correia[ii] “Talvez eu mude um pouco à medida que envelhecer, mas me parece que a vida é uma longa depressão cinza interrompida por momentos de grande hilaridade.”[iii] William Styron aos 28 anos. An


MEDO, ESPERANÇA E CONFIANÇA
Estátua de jovem encarando o famoso touro no centro financeiro de Nova York foi instalada para marcar o Dia Internacional da Mulher — Foto: Mark Lennihan/AP Em um episódio do programa Café Filosófico da TV Cultura: Afeto, psicanálise e política, com a participação do filósofo Vladimir Safatle e da psicanalista Maria Rita Kehl; o primeiro e uma de suas falas, citava que “nos deixamos colonizar por dois afetos que nos limitam, o medo e a esperança”[i]. Dois afetos estreitamente


BREVES CONVERSAS EQUIVOCADAS ENTRE A PSICANÁLISE E A ANTROPOLOGIA
"A tua presença", Heloísa Marques (instagram @heloisamarques__) “O que é que nos seduz e nos satisfaz no trompe l’oeil? Quando é que ele nos cativa, nos põe em jubilação? No momento em que, por um simples deslocamento de nosso olhar, podemos nos dar conta de que a representação não se move com ele, e que ali há apenas trompe l’oeil. Pois nesse momento ele aparece como coisa diferente daquilo pelo que ele se dava, ou melhor, ele se dá agora como sendo essa outra coisa. O qua


PARA HÉLIO PELLEGRINO
“As utopias são as fontes de todos os caminhos, projetados no porvir.”[i] Minha história com Hélio Pellegrino começou há vários anos, ainda na década de oitenta. Digo minha história com, mas sem Hélio, porque nunca o conheci pessoalmente e ele nunca soube da minha existência. Naquela época, eu ainda antes dos vinte anos, recém saído de um colégio jesuíta do Rio de Janeiro, começava a me interessar por participar mais ativamente da Igreja Católica. Devo confessar, que de iníci
SOBRE O FILME: “AMORES URBANOS”
Começo citando a entrevista da diretora e roterista do filme Vera Egito, presente nos extras do filme. Ela afirma que não tinha a pretensão de retratar uma geração ou uma cidade, mas especificamente um grupo de tipos, presente nos grandes aglomerados urbanos do mundo, que segundo ela poderiam estar no Rio, São Paulo, Nova York ou qualquer outro semelhante. Essa é uma ressalva importante, uma vez que nos alerta a não partir para generalizações, tão comuns e especialmente poten


PESTES SUBVERSIVAS
Médicos da peste: a sombria aparência de quem tratava de doenças contagiosas e epidêmicas na Idade Média. peste[1]: 1 doença infectocontagiosa que se manifesta sob a forma bubônica, pulmonar ou septicêmica, provocada por Bacillus pestis, que é transmitido ao homem pela pulga do rato 2 mal contagioso; pestilência 3 epidemia que acarreta grande mortandade 4 tudo que corrompe física e moralmente 5 coisa funesta 6 excesso de qualquer coisa prejudicial ou danosa 7 mau cheiro


PELO ESCURO DOS OLHOS TEUS
"Quando a luz dos olhos meus E a luz dos olhos teus Resolvem se encontrar Ai, que bom que isso é, meu Deus Que frio que me dá O encontro desse olhar” [1] É comum ouvirmos frases românticas de amor associadas a olhos e olhares. O sujeito enamorado percebe nos olhos da pessoa amada a segurança de ser correspondido ou a ameaça da perda, decifrados ali, na ausência de qualquer palavra. Olhos se mostram meios poderosos de comunicação, onde a mensagem se transmite mesmo sem querer.


INÚTIL NECESSÁRIO
Quando a razão moderna libertou o homem do divino e aterrou as questões de Deus, o mundo pareceu finalmente explicado, as lacunas ainda existentes, aos poucos seriam esclarecidas pela ciência. Tudo era somente uma questão de tempo, investimento e paciência. Estava próximo o mundo inteiramente domesticado, onde a ciência o explica e o dinheiro tudo viabiliza. Neste cenário de aparente completude, em caminho oposto às chamadas ciências duras, a filosofia, as artes e a nascente


SUJEITO GENÉRICO
Parece fácil definir o modelo de sucesso para uma carreira no mundo corporativo, são infinitos livros de autoajuda e revistas de negócios indicando o caminho. Basta seguir o padrão: inovador, ágil, flexível, com facilidade para o trabalho em equipe, dedicado e com o único defeito de ser um pouco perfeccionista. Programas de recrutamento e entrevistas parecem um desfile de iguais, mesmas respostas, mesmo discurso, exaustivamente treinado e ensaiado. Como poderia ser diferente?


NÃO OLHE PRA FRENTE
Talvez venha da infância. Pequenos à procura de aprendizado, preenchendo lacunas da ignorância, fomos instruídos a completar faltas. Aprender a andar, falar, ler, escrever. Passo a passo completamos cada etapa, que já no instante seguinte nos coloca em movimento à próxima. Uma gangorra que por um breve instante nos mantém na altura máxima, mas que logo a seguir nos empurra novamente ao movimento. Crescidos já é hora de trabalhar, hora de namorar, hora de casar, hora de ter fi


SOBRE UM MAR DE CERTEZAS
Quando todas respostas estão ao alcance de um clique. Parece sem sentido ou mesmo antiquado sustentarmos perguntas sem respostas. Talvez somente nos tempos de Shakespeare houvesse tempo disponível a ser investido na sua clássica “Ser ou não ser?”. Hoje são mais de 100 bilhões de buscas atendidas pelo Google mensalmente. Difícil imaginar quem respondia a toda essa avalanche de questionamentos nos longínquos tempos de antes do Google, ou AG. Limites de tempo e recursos, permite


MERITOCRACIA, CONSUMO E A FALTA
O modelo de mercado competitivo e globalizado, pressionou empresas à busca de competitividade e diferenciais a fim de manter sua posição, vis-à-vis novos competidores vindos de além mar. Neste cenário, perseguindo a alta performance que asseguraria sua sobrevivência, boa parte das companhias adotaram modelos de gestão baseados na meritocracia, estimulando a competição entre seus colaboradores e premiando resultados diferenciados. Rapidamente o modelo transformou-se em uma ver


TAL QUAL TELA DE CINEMA
Não conhecemos nem a nós mesmos, surpreendemo-nos ao longo da vida, com descobertas que em algum momento foram simplesmente esquecidas. Então, o que dizer deste ignorante de si, quando apaixonado por outro semelhante na sua falta? Apaixonamo-nos por quem? Nossos próprios reflexos, tal qual Narciso? Pelas projeções de nossos desejos, limitações, medos? Tal como uma tela, o outro apresenta um filme projetado por nós mesmos. Sem perceber, aquilo que nos escapa à percepção consci


SOBRAS QUE FALAM
Interessante notar o poder das palavras. Decodificação do pensamento, nomeia o que é abstrato, mas sendo apenas tradução, não consegue ser fiel ao objeto original, apenas semelhante. Como um escultor que retira os excessos da rocha e revela a forma submersa, as palavras não são diferentes, dão forma ao pensamento e o retiram do seu estado original. Resta saber o que fazer com as sobras. O bebê ainda não aprisionado na linguagem, usa sua única ferramenta de tradução disponível


PENA QUE TUDO DEU CERTO
Nascemos em uma caixa definida pelo tempo e espaço. Cabe a nós libertarmo-nos e descobrir nossos próprios caminhos. A vida nos oferece muitas escolhas ao longo de nossa existência, menos a decisão de onde e quando iremos nascer. Obra do acaso, Deus ou qualquer outra explicação que cada um possa ter, a caixa onde nascemos influencia nossa formação e talvez, na maioria das vezes, determina nosso destino. Nascer na periferia de uma grande cidade do terceiro mundo, fruto de uma f


PATERNIDADE DISTRIBUÍDA
A sociedade tem desafiado os modelos formais de família, trabalho, religião, lei. Os formatos históricos são diretamente questionados ou simplesmente substituídos por novas estruturas. As funções materna e paterna, antes confundidas pela relação parental e hoje substituídas pelo exercício da função, parecem ameaçadas. Sem a vivência dos limites impostos pela lei, familiar ou institucional, será que as próximas gerações serão dominadas por individualistas, imobilizados no narc


A FALTA EM UM MUNDO COMPLETO
O mundo contemporâneo oferece quase todas facilidades possíveis ao homem urbano classe média alta. Quase todas as perguntas possuem resposta, a maioria ao alcance de um clique. Comunidades virtuais nos trazem de volta amigos há décadas esquecidos. Perder-se é praticamente impossível, quando satélites nos indicam exatamente o caminho a seguir. Fala-se de qualquer lugar para qualquer lugar a qualquer tempo, tudo na palma de uma das mãos. Viaja-se da China ao Paquistão sem levan
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